Tem um cachorro preto na minha porta.
Ele arranha; late; gane.
Ele quer entrar, mas eu tenho medo.
Eu sempre tive.
Todos têm medo de cachorros como esse:
Preto, de olhos brancos e sem brilho.
Ninguém adotaria um cachorro preto assim.
Não pela cor, mas pelo seu jeito.
Tem esse cachorro preto, e tem o que ele traz.
Ele arrasta umas coisas consigo,
Umas sacolas e malas.
Essas coisas que queremos esquecer
E que, na verdade, ninguém esquece.
Tenho esse cachorro preto que,
Praticamente,
Mora na minha porta.
Ele não me deixa sair, acredito que ele sabe do meu medo.
E fica ali chorando e pedindo esmolas;
E fica ali resmungando e querendo carinho.
Eu odeio esse cachorro preto, eu nunca o vi.
Tem esse cachorro preto que quer entrar
Ou, talvez, queira que eu saia
Pra poder me morder.
Eu não gosto de pensar nisso, ninguém gosta,
Ninguém gosta de cachorros pretos.
Em alguma tarde de chuva ele vai morrer
E então só vou precisar carregar sua carcaça pra longe.
Espero que nunca o encare antes disso.

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