terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

ESPREITA



Tem um cachorro preto na minha porta.
Ele arranha; late; gane.
Ele quer entrar, mas eu tenho medo.
Eu sempre tive.

Todos têm medo de cachorros como esse:
Preto, de olhos brancos e sem brilho.
Ninguém adotaria um cachorro preto assim.
Não pela cor, mas pelo seu jeito.

Tem esse cachorro preto, e tem o que ele traz.
Ele arrasta umas coisas consigo,
Umas sacolas e malas.
Essas coisas que queremos esquecer
E que, na verdade, ninguém esquece.

Tenho esse cachorro preto que,
Praticamente,
Mora na minha porta.
Ele não me deixa sair, acredito que ele sabe do meu medo.
E fica ali chorando e pedindo esmolas;
E fica ali resmungando e querendo carinho.
Eu odeio esse cachorro preto, eu nunca o vi.

Tem esse cachorro preto que quer entrar
Ou, talvez, queira que eu saia
Pra poder me morder.
Eu não gosto de pensar nisso, ninguém gosta,
Ninguém gosta de cachorros pretos.

Em alguma tarde de chuva ele vai morrer
E então só vou precisar carregar sua carcaça pra longe.

Espero que nunca o encare antes disso.

CYANIDE


So tired to sleep
I just need
A little bit
A little glass of cyanide.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

LIMÍTROFES


A delícia das coisas aleatórias
Que me fazem bem
Justamente por me fazerem bem de forma tão precária
Quase ineficaz
É que me dá um fugaz tremor de eterno orgasmo
E faz crer que a vida
Pode ser o que dizem por aí
Se é que dizem algo por aí.

Saber demais das coisas me deixa mais sábia?
Eu discordo
Me deixa mais tensa
Mais densa
Preocupada, talvez
Sábia não.
Sábia eu fico quando encontro com os poetas do beco
Que não escrevem poemas
E fico a falar sobre o clima e as clínicas
Até o guarda nos expulsar
“Vão dormir, seus vagabundos!”

E, ah! Quando me fazem mostrar os dentes
Abro a boca e os mostro para o espelho
Para o monitor sujo
Para o nada
Abro a mente e deixo as flores do mal que a povoam
Dormirem um pouco
Então me calo
E dou a maior risada do mundo.

A melancolia é ruim, mas,
Como é bom viver o outro extremo.

VOZES


Se eu dissesse algo banal
Sobre coisas que não são
Se eu fosse natural
Ao falar da percepção.

Às vezes eu vejo mal
Às vezes as coisas não
Parecem vir do real
E sim da imaginação.

Mas, não que eu seja anormal,
É que eu temo o bicho-papão
E as vozes ali no quintal
Falam da sua aproximação.

Tem uma voz visceral
Furiosa, qual trovão,
Com um ódio atemporal
Que me pede escravidão.

Fico temperamental
Mas não vou negar o pão
Para o carrasco boçal
Que me arremessa ao porão.

Por vezes o tom vocal
Prende-me como um grilhão
Banho-me em fluído vital
Que chega a escorrer no chão.

E acordo passando mal
Sem dormir até então
E continua a voz leal
Minha atormentação.

Confundo o gosto do sal
Como sem lavar a mão
Tenho um medo irracional
De qualquer perseguição.

Eu sei que me querem mal
(Me vigiam feito o cão)
Mas nunca vi o rosto tal
Desse meu algoz vilão.




sábado, 24 de fevereiro de 2018

RÉQUIEM


E conversar, e conversar com quem?
Com quem me faz mal?
Com quem finge entender mas só diz "passe o sal"?
Com quem vive de óculos escuros encarando
a vida de forma deformada?
Não, obrigada.
Prefiro um mundo que não sei se existe
Que não tenho certeza
Que ninguém nunca viu, mas que aposto minhas fichas como
É melhor do que este
Mesmo que seja quente
Ainda que seja laranja
Supondo que tenha barulho
Prefiro ser gente ali
do que um qualquer, um bagulho jogado.
Esquecido.
Aqui.
Réquiem que ninguém lê.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

A HISTÓRIA É A MESMA

And I can't fight the tears that ain't coming
Or the moment of truth in my lies
When everything feels like the movies
Yeah, I bleed just to know I'm alive

___

E a busca por eterna e imaculável atenção
Maculava seu caráter
Eternizava seu sofrimento
Porque ninguém é capaz de
Ser assim
Tão íntegro
Tão concreto
Tão presente
Tão inescrupulosamente sem erros.

Mas ela buscava sempre
E sempre errava na busca
Buscando no lugar errado
Posto que todos os lugares fossem errados
Neste tipo de busca.

Pobre criança.
Cravando nos punhos suas derrotas estúpidas.


quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

PERCEPÇÕES


Perdendo algo que não sei o que é
É, eu estou
Talvez tempo?
Não, seria óbvio
Todos perdem tempo, uma hora a mais, uma a menos...
Isso é inerente a condição de ser vivo, eu acho
Eu acredito mesmo é que
Eu não sei.

Todos têm de aprender, uma hora,
Que o céu não é azul se você voar alto o suficiente
Que o mar não é tão encantador se você souber o quão suja é a água
E que vinhos de morango, parques noturnos,
Livros e cerejas não garantem a sua felicidade
“Até que a morte os separe”
Se for até o fundo...

Porque se for fundo o bastante você descobre
O quê? Eu não sei, é algo único
Mas descobrindo, nada volta, e tudo perde o gosto.

Aí, meu caro
Sua boca se enche de areia sabor açúcar mascavo
E dizer que alguém é “doce” passa a ser uma ofensa.

Você é tão doce querida... Doce como o suco gástrico
Que me passa pela boca quando vomito de tanto beber vinho barato.
Doce, como cogumelos alucinógenos que nascem na merda dos bovinos.
Doce, como... Como o mel mais doce do planeta!
E isso me enoja. Sinto muito, não quero mais vê-la.

Histórias são assim.
Nenhuma tem final feliz.
Se está “feliz”, é porque não teve fim.



quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

UMA MORDIDA DE CACHORRO


Os meus olhos pastosos,
castanhos,
invasivos,
procuraram um lugar sem luz para repousar.

Encontraram suas mãos brancas,
brilhantes,
nevadas,
e infartaram por ver tanta luminosidade a ofertar.

Nem aquela velha pausa estava lá para amenizar...


C’EST FINI


Brincando de filósofo e matemático
Entre equipamentos caros e bússolas
Apontando o Sul insistentemente
Lendo fórmulas ilegais, elegantes e ilegíveis.
Ele era o social,
O frugal de todo aquele requinte.

E gostava daquilo.
Ah! Como gostava!
Tinha sabor de cevada.

Lutando contra o Chapeleiro Maluco
Entre xícaras, pincéis, canetas e papéis
Rabiscados de projeções ortogonais
Calculando sempre como ser sorvete, sortudo e selvagem.
Ele era o insano,
O cigano de todo sangue estagnado.

E estranhava aquilo.
Ah! Como estranhava!
Era quente como lava.

Dormindo solitário num caixão invisível
Entre flores de plástico em vasos de vime
Trançados, laçados, artísticos como ele mesmo
Escrevendo libélulas libertas no papel desempenhado.
Ele era sua mente,
O vidente de toda vida passada e adivinhada com maestria.

E odiava aquilo.
Ah! Como odiava!
Era tudo como sonhava.

ENSAIO SOBRE COISA QUALQUER

A água corre no cômodo ao lado

Ela corre ruidosa e
Molhada
Ela me relaxa e aquece
Sem me tocar.

A água fica estagnada nas nuvens do céu escuro
Esconde as estrelas
Estas que,
Por sua vez,
Mentem-me suas idades
E atormentam minhas noites sem Lua.

A água caminha nos rios congelados do parque
Ela é sutil e afiada.
Sem tempo para as dores mundanas.

A água escorrega no vidro do carro
E atrapalha a visão do motorista
Que libera sua revolta
Em formato de blasfêmias tolas.

A água chove nas telhas de barro
Encharca o barro no chão
Encharca, também, a roupa e os cabelos
Das prostitutas da esquina.
Coitadas.

A água corre no cômodo ao lado
Ela fica estagnada nos cílios dourados de um homem
E vai-se embora pelo ralo.

A água chove lá fora.

Talvez, mais tarde, não ouse chover
Se descobrir o que os homens de bem fazem
Debaixo da sua bondade.
E o que os homens comuns vão fazer
Aos olhos de toda essa chuva.


Jéssica D. Clemente