quinta-feira, 15 de março de 2018

VINHO


O gosto não é mais o mesmo,
A visão da velha
Rezando baixo num canto,
Entoando seus mantras,
Não lhe traz um sentimento
Preciso.
Você sabe que acabou.

As longas conversas duram cada vez
Menos.
E são cada vez
Menos
Agradáveis...
Positivas...
Construtivas...
Instrutivas.
Você sabe que acabou.

Sobe-lhe a boca o gosto da bile
Só de ouvir falar.
Causa-lhe dor de cabeça e
Ulcerações no trato gástrico
Se tiver de visualizar a cena.
Você sabe que acabou.

Você entende.
Aceita, deve aceitar que acabou.
Pois, de fato, acabou, meu velho.
E até que acabou rápido
Não foi?
Quase nem sentiu o fim;
Quase nem foi possível determiná-lo.
Mas agora consumado
Você sabe que acabou.

Então, você sabe que acabou.
Deixe de ser inconveniente,
Seu incompetente, sua mula
Bestial!
Peça logo outro desses!
Não deixe minha taça vazia
Muito tempo: ela esfria.
Eu gosto de vinho quente!

Não se faça de avarento
Não combina com esse saber
Você e eu sabemos que não foi só isso
Que acabou.
Acabaram-se também os tira-gostos.

Garçom, mais um,
E uma tábua de petiscos, por favor,
Porque essa garrafa
Ah, essa ele sabe
Você sabe também,
Acabou.

segunda-feira, 12 de março de 2018

EVOLUÇÃO

Como neve derretida
Que vai pelo rio;
Eu vou.

Suave e melíflua
Como lua cheia;
Eu vou.

Lábil, volante descontrolado
Carro blindado;
Eu vou.

Bebida ardente,
Veneno poderoso;
Eu vou.

Vida contínua
Eu vou
Evoluindo.

quarta-feira, 7 de março de 2018

CEREJAS


A vida é linda.

Temos dores, sofrimentos e prazeres.
Não podemos pô-los numa balança
Pelo fato de,
Claro,
Sermos exagerados nos pesares
E modestos nas alegrias.

A vida é linda.

Tem sorrisos.
Uma tonelada deles!
Tem lágrimas, e muitas delas de tanto rir.

A vida é linda.
Nós vivemos somente até morrermos.
Nesse espaço eu gostaria muito de saber:
Há milagres?

Se seu único caminho é pra baixo e
Seu único refúgio é escuro;
E você tem medo do escuro.
Há milagres?

Há alguma força oculta debaixo da pele
Que, talvez, se liberte se você
Abrir uma fresta...?

A vida é linda!
Tomé seu café agora,
Ouça sua própria respiração
(quem sabe se não é a última vez?)
Vá para casa e sonhe.
Milagres existem.

terça-feira, 6 de março de 2018

PASSAGEIRA


As vezes a vida surpreende
E isso não é sempre bom
Nem sempre mau.
Mas é sempre novo!

A delícia das coisas novas:
Livro, perfume, carro...
O cheiro do lápis de cor
Sensação de liberdade dentro da jaula do dia a dia.

Uma vez vencida a névoa
Que escondem as coisas boas do cotidiano
Mostra-se uma luza brilhante
Que quase nos cega.
E nossos olhos se fecham ao sorrirmos.
Traço oriental induzido.
Como é boa a experiência de viver!

segunda-feira, 5 de março de 2018

BENZENO


“Oh, deleite!
Deleite e paraíso!
Era a formosura e a formosidade feitas carne.”

E é sempre um prazer estar com você;
Sempre um prazer conhecê-lo
Um pouco mais...

E é muito mais lindo o luar com você;
Muito mais lindo sonhá-lo
Ao seu lado...

E é bem poético o caos cotidiano, segurando sua mão;
Bem poético seus dedos mornos
Entrelaçados nos meus...

E é um deleite
E me faz sentir o paraíso
Me embriaga;
Me enobrece;
Me enaltece estar aqui e ali
Desafiando Newton.

“Inconstância, doce e fascinante, feita carne”.

domingo, 4 de março de 2018

FANTASIA

Se me mostram razões para chorar
Quando deviam me alegrar

É minha emoção que fala.

Se me mostram falhas tristes e erros irreversíveis
(sempre são)

É minha razão que fala.

Se aparecem balões e serpentinas
Me pedindo para festejar

É meu ego que fala.

E se não ouço nada, não vejo nada,
Não sinto nada, nem o toque da brisa, nem o voltejar das folhas.

São todos calados, pássaros calados, suspiros de fada.
(me amam tanto que não dizem nada)

sexta-feira, 2 de março de 2018

ENCONTRO


Eu sempre desejei ter um amor
Que completasse minha triste lida,
Alguém que me enchesse de calor
E compreendesse a dor por mim vivida.

Não esperava encontrá-lo agora,
Muito menos num mundo sério e cinza!
E quando ouvi tua voz vinda de fora,
Perdi a razão que me restava ainda.

Olhei teus olhos castanhos me fitando,
E decidi, ali mesmo, que enquanto
Viver, sou tua e és meu, amor ardente

E dei-me por inteira a tua vontade...
Sempre sonhando com a eternidade
De mãos dadas contigo, ao Sol poente.