terça-feira, 25 de dezembro de 2018

HIPÓCRITAS


Sorriso enegrecido pelo

Véu
Das comemorações.
Eu levo em meus lábios o 
Mel
Das suposições.
Perguntas descabidas num 
Mar
De indagações
Sem tato, sem sutileza sem
Ar
Em seus pulmões.
Não pensam e nem querem
Pensar
Em ser mais cuidadosos
Não importa quem vão acertar
Jovens ou idosos.
Somente os fogos e a grande festa
Ostentar
Pensar que a morte não se apressa
Em chegar.
E assim finalizar o ano
Sem dó
Deixando por baixo do pano
Só o pó.

DOCE FIM


Sorrir, pular,
Fingir amor.
Deixar-se amar e, por favor,
Espalhar afeto pela sala,
Pelo gramado, pela cozinha...
E que para o ano que se avizinha
Tenha luz e paz  na sua casa
E na minha.

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

RECEIO DE SEGUNDA FEIRA

Medo de ser sincera
Feito criança que
Ao ser perguntada
Responde sem filtro
O que vem à cabeça.

Medo de ser mal
Interpretada
Ter palavras postas em minha boca
Ser chamada de
Louca
Sonhadora inconsequente.

Medo de ser julgada
Condenada pelo sentir
Pelo ir e vir
Da sensação de nostalgia
Que me visita sempre que te encontro.

Medo de que ao dizerem:
"O Não você já tem"
E eu vá buscar o Sim
E o Sim seja inexistente
E eu fique no vácuo
Sem árvore e sem semente.

Medo de me paralisar de medo
De perder a oportunidade
De deixar passar
E depois me arrepender de
Não ter
Sido direta e pontual.

Porque o que tem de mal,
Se eu só quero o bem...?

sábado, 10 de novembro de 2018

NEURO

Sempre quase
Viva.
Morta sem
Saída.

Livre na
Prisão.
Fé com pé no
Chão.

Pele
Ressequida.
Pálpebra
Caída.

Pulsos
Recortados.
Sonhos
Acordados.

Olhos
Sonhadores.
Casos
Pescadores.

Desejo justo e
Bondoso.
Tranquilo sistema
Nervoso.

domingo, 4 de novembro de 2018

FINAL DE ANO

Porque a dor dói diferente em cada um.
Dói no pé do ouvido, afinal
Ouvir palavras venenosas de algum
Perdido sufocado em um mal
Pensamento
É terrível.

Em meu viver é sem igual
A dor.
E meus planos de querer
Morrer no Natal
Para não ter que entregar
Os presentes de amigo secreto
Nem amar
Nem comer com todos
Comida de lar.
Minha mãe quem fez, prazer.
Devia provar.

Sem amor romântico eu consigo
Pensar com mais clareza
Mesmo que sempre comigo
Ande a tristeza
Remota
Lorota de quem diz
Que ser feliz
É fácil e indolor.

Agora preciso me despedir
Estou partindo
Não espere eu sair,
Ou cair, ou sumir...
Pode vir zunindo
Meus ouvidos
E dizer
Bem feito.
Ninguém mandou ser direito.
Devia esquecer
E fazer
O melhor com o que tem
Pois viver sem ninguém
Não tem preço.

sábado, 4 de agosto de 2018

FUGA

Se eu pudesse me jogar
Num mar de rosas sem espinhos
E viver uma vida violeta
Sem manchas brancas e pretas
Seria meu bem maior...

Se eu pudesse me libertar
Das correntes da angústia
Que, como as correntes de vento,
Me fazem sentir
Frio.

Se eu tentasse me jogar
Num mar de rosas
Sem espinhos
Eu teria algumas respostas
Ou não.

Eu... Não!
Eu já tentei.
E hoje eu sei, ah! Como sei!
Que rosas sem espinhos
Estão em jardins secretos
E os que mergulham
Nos mares de flores
São seletos.

E violetas ou margaridas
Quem sabe haja um jasmim?
Isso existe em um canto
Escuro
Escondido
Em mim.

sábado, 7 de julho de 2018

SEM PERDÃO

Se inútil não tem desculpas.
Eu sempre achei
Que tinha.
Que podia
Dar um jeito.
Cuidar e
Mudar,
Mas não.

Ser inútil não tem desculpas.
Sentir-se fora de
Órbita
Casa
Corpo.
Amorfo.
Sem chance pra cura.
Não tem remédio
O que desremediado está.

Ser inútil não tem desculpas.
Um filme legendado
Em latim
Que trata da enorme falta
De significado
Do meu ser.
Da gigantesca
Falha
Que é
A minha existência.

Ser inútil não tem desculpas.

Antes pó do que mal
Elaborado.

segunda-feira, 4 de junho de 2018

AINDA TEM


Ainda tem a terça.
E a quarta, a quinta, a sexta...
A semana inteira, depois o final dela.
Ainda tem o restante do mês.

Ainda tem o restante do mês
E o outro mês que logo começa.
Com pressa.
Nem faz pausa entre último e primeiro.
Não respira, não suspira.
O tempo parece nem ir ao banheiro.

Ainda tem o resto do ano.
Tem feriados e festas e dias quentes.
Tem dias frios também,
Mas esses,
Ninguém conta, eu suspeito.
Passam rápidos debaixo do cobertor.
Nem sentimos a dor.
Nem vivemos direito.

Ainda tem as décadas de envelhecimento.
Ainda tem rugas.
Verrugas.
Furúnculos e dentaduras.
Tem o grisalho, a calvície,
As perucas.

E depois de tudo, ainda tem a morte.
Ainda tem o não respirar.
O não bater, o não mover.
Antes de ter o morrer
Ainda tem o exame final.
Ainda tem a “causa mortis”,
O Atestado de Óbito
E o funeral.

E só depois terei a tão sonhada,
Acalentada, idealizada,
Acolchoada e cultivada vontade
De inexistir.

Mas ainda tem muito,
Muito que fazer por aqui
Antes de ir.

AMADEUS


E quem liga?
Se seu chão está marcado de pegadas,
indo e voltando,
porque você é humano
e indeciso?
E suas roupas encharcadas de suor
do seu esforço;
sujas com suas vitórias irrisórias...
Quem nota seu riso durante um sonho?
Quem anota quantas vezes você chora?
Essas marcas que você mesmo fez.
Essas que lembram as que
não se pode ver.
São importantes batalhas vencidas? Não!
cicatrizes assimétricas.
E quem liga?
Vencer, perder, viver, acaba no mesmo.
O mesmo mármore frio pra todos.
Não se pode ganhar quando nada se tem
para apostar.

ORAÇÃO


A gota de sangue que se derramou;
A lágrima que dos olhos rolou;
O mudo coração que gritou;
O sorriso brilhante que a maldade apagou...
Por isso, uma prece.

A vida que pelos poros se esvai;
A alegria que dos lábios cai;
Os pensamentos que se resumem num “ai”;
O descanso eterno que agora me atrai...
Por isso, uma prece.

A lembrança do sonho que não aconteceu;
O brilho nos olhos de um plebeu;
A princesa jovem que já morreu;
O câncer da alma que me acometeu...
Por mim, uma prece. Amém.

quinta-feira, 15 de março de 2018

VINHO


O gosto não é mais o mesmo,
A visão da velha
Rezando baixo num canto,
Entoando seus mantras,
Não lhe traz um sentimento
Preciso.
Você sabe que acabou.

As longas conversas duram cada vez
Menos.
E são cada vez
Menos
Agradáveis...
Positivas...
Construtivas...
Instrutivas.
Você sabe que acabou.

Sobe-lhe a boca o gosto da bile
Só de ouvir falar.
Causa-lhe dor de cabeça e
Ulcerações no trato gástrico
Se tiver de visualizar a cena.
Você sabe que acabou.

Você entende.
Aceita, deve aceitar que acabou.
Pois, de fato, acabou, meu velho.
E até que acabou rápido
Não foi?
Quase nem sentiu o fim;
Quase nem foi possível determiná-lo.
Mas agora consumado
Você sabe que acabou.

Então, você sabe que acabou.
Deixe de ser inconveniente,
Seu incompetente, sua mula
Bestial!
Peça logo outro desses!
Não deixe minha taça vazia
Muito tempo: ela esfria.
Eu gosto de vinho quente!

Não se faça de avarento
Não combina com esse saber
Você e eu sabemos que não foi só isso
Que acabou.
Acabaram-se também os tira-gostos.

Garçom, mais um,
E uma tábua de petiscos, por favor,
Porque essa garrafa
Ah, essa ele sabe
Você sabe também,
Acabou.

segunda-feira, 12 de março de 2018

EVOLUÇÃO

Como neve derretida
Que vai pelo rio;
Eu vou.

Suave e melíflua
Como lua cheia;
Eu vou.

Lábil, volante descontrolado
Carro blindado;
Eu vou.

Bebida ardente,
Veneno poderoso;
Eu vou.

Vida contínua
Eu vou
Evoluindo.

quarta-feira, 7 de março de 2018

CEREJAS


A vida é linda.

Temos dores, sofrimentos e prazeres.
Não podemos pô-los numa balança
Pelo fato de,
Claro,
Sermos exagerados nos pesares
E modestos nas alegrias.

A vida é linda.

Tem sorrisos.
Uma tonelada deles!
Tem lágrimas, e muitas delas de tanto rir.

A vida é linda.
Nós vivemos somente até morrermos.
Nesse espaço eu gostaria muito de saber:
Há milagres?

Se seu único caminho é pra baixo e
Seu único refúgio é escuro;
E você tem medo do escuro.
Há milagres?

Há alguma força oculta debaixo da pele
Que, talvez, se liberte se você
Abrir uma fresta...?

A vida é linda!
Tomé seu café agora,
Ouça sua própria respiração
(quem sabe se não é a última vez?)
Vá para casa e sonhe.
Milagres existem.

terça-feira, 6 de março de 2018

PASSAGEIRA


As vezes a vida surpreende
E isso não é sempre bom
Nem sempre mau.
Mas é sempre novo!

A delícia das coisas novas:
Livro, perfume, carro...
O cheiro do lápis de cor
Sensação de liberdade dentro da jaula do dia a dia.

Uma vez vencida a névoa
Que escondem as coisas boas do cotidiano
Mostra-se uma luza brilhante
Que quase nos cega.
E nossos olhos se fecham ao sorrirmos.
Traço oriental induzido.
Como é boa a experiência de viver!

segunda-feira, 5 de março de 2018

BENZENO


“Oh, deleite!
Deleite e paraíso!
Era a formosura e a formosidade feitas carne.”

E é sempre um prazer estar com você;
Sempre um prazer conhecê-lo
Um pouco mais...

E é muito mais lindo o luar com você;
Muito mais lindo sonhá-lo
Ao seu lado...

E é bem poético o caos cotidiano, segurando sua mão;
Bem poético seus dedos mornos
Entrelaçados nos meus...

E é um deleite
E me faz sentir o paraíso
Me embriaga;
Me enobrece;
Me enaltece estar aqui e ali
Desafiando Newton.

“Inconstância, doce e fascinante, feita carne”.

domingo, 4 de março de 2018

FANTASIA

Se me mostram razões para chorar
Quando deviam me alegrar

É minha emoção que fala.

Se me mostram falhas tristes e erros irreversíveis
(sempre são)

É minha razão que fala.

Se aparecem balões e serpentinas
Me pedindo para festejar

É meu ego que fala.

E se não ouço nada, não vejo nada,
Não sinto nada, nem o toque da brisa, nem o voltejar das folhas.

São todos calados, pássaros calados, suspiros de fada.
(me amam tanto que não dizem nada)

sexta-feira, 2 de março de 2018

ENCONTRO


Eu sempre desejei ter um amor
Que completasse minha triste lida,
Alguém que me enchesse de calor
E compreendesse a dor por mim vivida.

Não esperava encontrá-lo agora,
Muito menos num mundo sério e cinza!
E quando ouvi tua voz vinda de fora,
Perdi a razão que me restava ainda.

Olhei teus olhos castanhos me fitando,
E decidi, ali mesmo, que enquanto
Viver, sou tua e és meu, amor ardente

E dei-me por inteira a tua vontade...
Sempre sonhando com a eternidade
De mãos dadas contigo, ao Sol poente.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

ESPREITA



Tem um cachorro preto na minha porta.
Ele arranha; late; gane.
Ele quer entrar, mas eu tenho medo.
Eu sempre tive.

Todos têm medo de cachorros como esse:
Preto, de olhos brancos e sem brilho.
Ninguém adotaria um cachorro preto assim.
Não pela cor, mas pelo seu jeito.

Tem esse cachorro preto, e tem o que ele traz.
Ele arrasta umas coisas consigo,
Umas sacolas e malas.
Essas coisas que queremos esquecer
E que, na verdade, ninguém esquece.

Tenho esse cachorro preto que,
Praticamente,
Mora na minha porta.
Ele não me deixa sair, acredito que ele sabe do meu medo.
E fica ali chorando e pedindo esmolas;
E fica ali resmungando e querendo carinho.
Eu odeio esse cachorro preto, eu nunca o vi.

Tem esse cachorro preto que quer entrar
Ou, talvez, queira que eu saia
Pra poder me morder.
Eu não gosto de pensar nisso, ninguém gosta,
Ninguém gosta de cachorros pretos.

Em alguma tarde de chuva ele vai morrer
E então só vou precisar carregar sua carcaça pra longe.

Espero que nunca o encare antes disso.

CYANIDE


So tired to sleep
I just need
A little bit
A little glass of cyanide.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

LIMÍTROFES


A delícia das coisas aleatórias
Que me fazem bem
Justamente por me fazerem bem de forma tão precária
Quase ineficaz
É que me dá um fugaz tremor de eterno orgasmo
E faz crer que a vida
Pode ser o que dizem por aí
Se é que dizem algo por aí.

Saber demais das coisas me deixa mais sábia?
Eu discordo
Me deixa mais tensa
Mais densa
Preocupada, talvez
Sábia não.
Sábia eu fico quando encontro com os poetas do beco
Que não escrevem poemas
E fico a falar sobre o clima e as clínicas
Até o guarda nos expulsar
“Vão dormir, seus vagabundos!”

E, ah! Quando me fazem mostrar os dentes
Abro a boca e os mostro para o espelho
Para o monitor sujo
Para o nada
Abro a mente e deixo as flores do mal que a povoam
Dormirem um pouco
Então me calo
E dou a maior risada do mundo.

A melancolia é ruim, mas,
Como é bom viver o outro extremo.

VOZES


Se eu dissesse algo banal
Sobre coisas que não são
Se eu fosse natural
Ao falar da percepção.

Às vezes eu vejo mal
Às vezes as coisas não
Parecem vir do real
E sim da imaginação.

Mas, não que eu seja anormal,
É que eu temo o bicho-papão
E as vozes ali no quintal
Falam da sua aproximação.

Tem uma voz visceral
Furiosa, qual trovão,
Com um ódio atemporal
Que me pede escravidão.

Fico temperamental
Mas não vou negar o pão
Para o carrasco boçal
Que me arremessa ao porão.

Por vezes o tom vocal
Prende-me como um grilhão
Banho-me em fluído vital
Que chega a escorrer no chão.

E acordo passando mal
Sem dormir até então
E continua a voz leal
Minha atormentação.

Confundo o gosto do sal
Como sem lavar a mão
Tenho um medo irracional
De qualquer perseguição.

Eu sei que me querem mal
(Me vigiam feito o cão)
Mas nunca vi o rosto tal
Desse meu algoz vilão.




sábado, 24 de fevereiro de 2018

RÉQUIEM


E conversar, e conversar com quem?
Com quem me faz mal?
Com quem finge entender mas só diz "passe o sal"?
Com quem vive de óculos escuros encarando
a vida de forma deformada?
Não, obrigada.
Prefiro um mundo que não sei se existe
Que não tenho certeza
Que ninguém nunca viu, mas que aposto minhas fichas como
É melhor do que este
Mesmo que seja quente
Ainda que seja laranja
Supondo que tenha barulho
Prefiro ser gente ali
do que um qualquer, um bagulho jogado.
Esquecido.
Aqui.
Réquiem que ninguém lê.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

A HISTÓRIA É A MESMA

And I can't fight the tears that ain't coming
Or the moment of truth in my lies
When everything feels like the movies
Yeah, I bleed just to know I'm alive

___

E a busca por eterna e imaculável atenção
Maculava seu caráter
Eternizava seu sofrimento
Porque ninguém é capaz de
Ser assim
Tão íntegro
Tão concreto
Tão presente
Tão inescrupulosamente sem erros.

Mas ela buscava sempre
E sempre errava na busca
Buscando no lugar errado
Posto que todos os lugares fossem errados
Neste tipo de busca.

Pobre criança.
Cravando nos punhos suas derrotas estúpidas.


quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

PERCEPÇÕES


Perdendo algo que não sei o que é
É, eu estou
Talvez tempo?
Não, seria óbvio
Todos perdem tempo, uma hora a mais, uma a menos...
Isso é inerente a condição de ser vivo, eu acho
Eu acredito mesmo é que
Eu não sei.

Todos têm de aprender, uma hora,
Que o céu não é azul se você voar alto o suficiente
Que o mar não é tão encantador se você souber o quão suja é a água
E que vinhos de morango, parques noturnos,
Livros e cerejas não garantem a sua felicidade
“Até que a morte os separe”
Se for até o fundo...

Porque se for fundo o bastante você descobre
O quê? Eu não sei, é algo único
Mas descobrindo, nada volta, e tudo perde o gosto.

Aí, meu caro
Sua boca se enche de areia sabor açúcar mascavo
E dizer que alguém é “doce” passa a ser uma ofensa.

Você é tão doce querida... Doce como o suco gástrico
Que me passa pela boca quando vomito de tanto beber vinho barato.
Doce, como cogumelos alucinógenos que nascem na merda dos bovinos.
Doce, como... Como o mel mais doce do planeta!
E isso me enoja. Sinto muito, não quero mais vê-la.

Histórias são assim.
Nenhuma tem final feliz.
Se está “feliz”, é porque não teve fim.



quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

UMA MORDIDA DE CACHORRO


Os meus olhos pastosos,
castanhos,
invasivos,
procuraram um lugar sem luz para repousar.

Encontraram suas mãos brancas,
brilhantes,
nevadas,
e infartaram por ver tanta luminosidade a ofertar.

Nem aquela velha pausa estava lá para amenizar...


C’EST FINI


Brincando de filósofo e matemático
Entre equipamentos caros e bússolas
Apontando o Sul insistentemente
Lendo fórmulas ilegais, elegantes e ilegíveis.
Ele era o social,
O frugal de todo aquele requinte.

E gostava daquilo.
Ah! Como gostava!
Tinha sabor de cevada.

Lutando contra o Chapeleiro Maluco
Entre xícaras, pincéis, canetas e papéis
Rabiscados de projeções ortogonais
Calculando sempre como ser sorvete, sortudo e selvagem.
Ele era o insano,
O cigano de todo sangue estagnado.

E estranhava aquilo.
Ah! Como estranhava!
Era quente como lava.

Dormindo solitário num caixão invisível
Entre flores de plástico em vasos de vime
Trançados, laçados, artísticos como ele mesmo
Escrevendo libélulas libertas no papel desempenhado.
Ele era sua mente,
O vidente de toda vida passada e adivinhada com maestria.

E odiava aquilo.
Ah! Como odiava!
Era tudo como sonhava.

ENSAIO SOBRE COISA QUALQUER

A água corre no cômodo ao lado

Ela corre ruidosa e
Molhada
Ela me relaxa e aquece
Sem me tocar.

A água fica estagnada nas nuvens do céu escuro
Esconde as estrelas
Estas que,
Por sua vez,
Mentem-me suas idades
E atormentam minhas noites sem Lua.

A água caminha nos rios congelados do parque
Ela é sutil e afiada.
Sem tempo para as dores mundanas.

A água escorrega no vidro do carro
E atrapalha a visão do motorista
Que libera sua revolta
Em formato de blasfêmias tolas.

A água chove nas telhas de barro
Encharca o barro no chão
Encharca, também, a roupa e os cabelos
Das prostitutas da esquina.
Coitadas.

A água corre no cômodo ao lado
Ela fica estagnada nos cílios dourados de um homem
E vai-se embora pelo ralo.

A água chove lá fora.

Talvez, mais tarde, não ouse chover
Se descobrir o que os homens de bem fazem
Debaixo da sua bondade.
E o que os homens comuns vão fazer
Aos olhos de toda essa chuva.


Jéssica D. Clemente